Cantareira em abril de 2014

A crise será longa: veja o que pode acontecer com o sistema Cantareira em 2015

Qual é o futuro do sistema Cantareira em 2015? Essa talvez seja a pergunta mais importante a se fazer em São Paulo neste momento. O Cantareira é o principal sistema de abastecimento de água da Região Metropolitana de São Paulo. Em situações normais, atende 8,8 milhões de pessoas na capital paulista e em outros 10 municípios. Neste momento, o manancial vive sua maior crise.

A Sabesp, responsável pelo abastecimento de água no Estado, não divulgou até agora projeções detalhadas a respeito do futuro do Cantareira. Um dos poucos dados publicados é o nível diário do sistema. Na falta de esclarecimento oficial, o SãoPa analisou os números disponíveis, desde 2003, e traçou quatro cenários possíveis para 2015. Não são previsões, mas projeções baseadas no passado. Nenhuma delas é animadora. Duas são trágicas.

Mas antes de olhar para o futuro, vamos analisar o presente.

Nível do Cantareira está em queda desde 21 de abril de 2013, mais de 500 dias seguidos

Como estamos agora? Veja nos gráficos abaixo. A linha vermelha mostra o nível do Cantareira em 2014, desde 1˚ de janeiro. Não há nada parecido com ela em toda a série histórica, desde 2003. Ao contrário dos demais anos, não há curvas, mas uma queda contínua. Isso acontece porque, pela primeira vez, o verão do início do ano não elevou o volume de água.

Também pela primeira vez, esgotamos todo o volume útil do manancial, de 982 bilhões de litros. Isso aconteceu em 12 de julho de 2014, quando cruzamos a linha zero e entramos no “cheque especial”. A partir de então, passamos a utilizar o chamado volume morto, uma camada de água que não pode ser retirada por gravidade e que precisa ser bombeada. São 510 bilhões de litros. Deste montante, um primeiro lote de 182,5 bilhões passou a ser utilizado. Até 10 de outubro, gastamos três quartos dele.

Agora, vamos para as projeções para 2015. Os cenários começam a partir de 1˚ de outubro deste ano.

 

No ritmo atual, primeiro lote do volume morto acaba em 18 de novembro

A queda média do volume do Cantareira em 2014 é de 1,4 bilhão de litros por dia. É como se fossem esvaziadas 560 piscinas olímpicas diariamente no manancial.

Se esse ritmo continuar, o futuro do Cantareira será conforme a linha rosa, no gráfico a seguir. Dia 18 de novembro, acabaria o primeiro lote do volume morto. Supondo que seja possível extrair água até a última gota do Cantareira, o sistema iria se esgotar completamente em 9 de julho de 2015.

Esse cálculo atribui um valor fixo (a média diária de 2014) para a mudança do volume do Cantareira, dia a dia, a partir de 1˚ de outubro de 2014. A seguir, vamos considerar valores diferentes para cada dia do ano.

 

Se a seca do verão de 2013-14 se repetir, primeiro lote acaba em 16 de novembro

Vejamos o que ocorre com o Cantareira caso se repita, no próximo verão, a queda no volume verificada do final de 2013 ao início de 2014. Para isso, separamos os dados da evolução diária do nível da Cantareira desde 1˚ de outubro de 2013. E somamos a variação dia a dia ao nível atual, a partir de 1˚ de outubro deste ano.

A linha vinho mostra o resultado. O primeiro lote do volume morto acabaria em 16 de novembro desde ano. O Cantareira iria secar em 12 de julho de 2015.

 

Se o Cantareira subir na média da década, voltaremos a usar o volume morto em julho de 2015

O SãoPa calculou a variação média do nível do Cantareira, dia a dia, de 2003 a 2013. Novamente, somamos estes dados ao nível atual, a partir de 1˚ de outubro deste ano. Qual foi o resultado? O volume continuaria a cair até 8 de dezembro de 2014. No total, seriam quase 600 dias de queda contínua. Nessa altura, estaríamos quase no limite do primeiro lote do volume morto.

Então, em 9 de dezembro, o nível voltaria a subir. E, no começo de março de 2015, tiraríamos a cabeça do volume morto. O pico seria de 4% do volume útil, em abril de 2015. É menos do que o verificado em abril de 2014 – cerca de 10%.

No último 7 de outubro, o Ministério Público Federal (MPF) e o Ministério Público Estadual de São Paulo (MPE-SP) anunciaram a abertura de um processo contra a Sabesp relativo ao sistema Cantareira. Os dois órgãos pedem mudanças para “garantir que, em 30 de abril de 2015, o conjunto de reservatórios atinja, no mínimo, o mesmo nível de água registrado em 30 de abril deste ano (10% do volume útil)”. Conforme vimos, caso o cenário médio da década se repita, isso não deve acontecer.

A chegada do inverno de 2015 faria a situação se agravar. Novamente em julho, desceríamos abaixo do volume morto. Ou seja, voltaríamos a viver uma situação muito parecida com a de agora.

 

Se o melhor ano da Cantareira se repetir, 2015 terá o segundo pior junho da década

Restam chances para sairmos do “cheque especial” com o Cantareira em 2015? Sim, caso as chuvas venham com força. Na última década, o verão que mais adicionou água ao manancial foi o do fim de 2008 ao início de 2009. Em quatro meses, de dezembro a abril, o volume subiu 40 pontos percentuais.

Se a variação diária do volume da Cantareira verificada naquele período se repetir, chegaremos a junho de 2015 com 19% do volume útil – 9 pontos percentuais acima do solicitado pelo MPF e MPE-SP. Seria uma vitória! Ainda assim, seria o segundo pior valor para junho desde 1982, pelo menos (ano em que se inicia a série histórica do volume do Cantareira da Agência Nacional de Águas).

 

Todos os cenários em um gráfico só

Fonte: Projeto Mananciais do Oeco, Sabesp
Referência: Fernando Reinach, “A água do Sistema Cantareira pode acabar?”

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